Crime e Castigo é considerado um romance polifônico, em que as múltiplas vozes estão diretamente presentes no contexto, pode-se então perceber que os próprios diálogos conversam entre si, de modo que o narrador e o personagem acabam simultaneamente tendo uma única voz em certos momentos da narrativa e em outras partes são destingidas. Isto está diretamente relacionado com o fato de que a consciência de Ródia juntamente com sua subjetividade e objetividade misturam-se, ou seja, os sentimentos e a razão se misturam, e isso pode ser provado pelas próprias atitudes do protagonista que se denúncia a Zamiótov na taberna, contando-o exatamente como faria se fosse ele que tivesse matado a usuária e fazendo Zamiótov acreditar que foi o próprio Ródia que a matou. Diria que são estes momentos em que a razão de Ródia se confunde com seu inconsciente e loucura, mostrando indícios de culpa e até certo remorso.
A razão e a lógica que o levam a cometer o delito são baseadas no conceito de que ele é um homem extraordinário. Matar a velha, para ele, é só mais um empecilho que se põe sua trajetória para se tornar um homem extraordinário como Napoleão, mas ele não esperava se deparar com a culpa, porque os verdadeiros homens extraordinários não possuem culpa.
É importante falar que em nenhum momento, Raskolnikov se arrepende de ter matado a usuária Aleona, mas seu remorso se constitui em ter matado Lisavieta, que é narrada no livro “como uma criança pequena” (pag 79) e muitas vezes apenas narrada como inocente, ou seja, Lisavieta foi o pecado de Raskolnikov, uma vez que ele matou algo que era puro e totalmente diferente dos conceitos que ele acreditava, caindo assim sua teoria por baixo: ele não estava acima do bem e do mal.
Desta forma, podemos analisar que os seus sonhos e delírios estavam sempre relacionados com sua culpa, como ocorre quando Ródia volta da delegacia devido à intimação por falta de pagar aluguel à senhoria, e sonha com a mesma sendo espancada. Os delírios vêem acompanhados com uma febre que o perturba durante todo o contexto do livro, e é claro, que ao se ter febre os delírios ficam mais intensos, a ponto do próprio Ródia duvidar de sua sanidade.
Neste contexto, podemos ter a certeza de que o nome do livro, faz jus à história de que quando se comete um crime se tem um castigo, sendo este último a culpa, e como já dizia Reinaldo Azevedo em seu artigo
“Crime e castigo dentro de nós”: “ninguém inventou ainda um instrumento útil que possa substituir a consciência individual”.
E sem ainda sair do próprio artigo encontramos que “Aquela crise que Dostoievski identificou no fim do século XIX, se quiserem saber, ainda é a nossa” Sim! Aquela crise, foi nos passada, uma vez que Dostoievski consegui sintetizar toda angústia do séc XX, como já dizia Emmanuel Souza, e Ródia portanto acaba sintetizando algo bem maior que todo o espaço atribuído no livro, sendo que ele adquiri uma consciência repleta de culpa e angustias que é disseminada pelo livro.
É preciso ainda se falar de outras coisas curiosas como Sônia e toda questão religiosa e existencialista expressa no livro. Não há como ignorar a critica ao niilismo, uma vez que, em vistas gerais, o próprio livro faz uma critica intensa a essa concepção.
Vejamos bem, durante todo o livro o personagem constrói a idéia de Homem Extraordinário, que está acima do bem e do mal e que “se Deus não existe tudo nós é permito” (concepção posteriormente adquirida em Irmãos Karamazov), mas o final destrói totalmente a teoria, uma vez que Ródia se encontra querendo apenas ser como todos os homens, mas sem ter nenhuma carga em sua consciência, no final do livro Ródia escolhe e opta pelo amor no local de toda grandeza. E esse é o conceito que Dostoieviski acreditava, porque antes de se encontrar na redenção Ródia era expressado e narrado no livro como um homem frio e calculista que não gostava de muitas pessoas “não gostava das multidões” e tinha até o seu melhor amigo afastado por quatro meses antes de cometer seu delito. Além do trecho em que Razumíkhin diz que talvez Ródia nunca seria capaz de amar, mas a redenção o torna uma pessoa diferente.
Nesta visão, podemos retirar que o livro Crime e Castigo como um todo é a construção de uma anti-tese que se constitui contra a idéia niilista de que tudo é um ciclo e os acontecimentos se repetem, não havendo Deus.
Ainda, para muitos críticos, o final do livro, talvez perca a graça, uma vez que Ródia deixa de ser extraordinário e passa a ser ordinário, ao meu ver, o final é uma das melhores partes do livro, já que não é o tipo de final que se pode prever, ou tanto dramático, como seria se fosse caso se ele matasse. Ao passar de extraordinário para ordinário e assumir sua culpa Ródia liberta-se de conflitos internos e até deixa o leitor menos atormentado, e talvez até sem entender o que aconteceu, de tão rápido que o final se constitui.
Assim, como toda obra realista, no livro há a apresentação de características fundamentais destes romances como:
· Mulher não idealizada, mostrada com defeitos e qualidades
Demonstrada principalmente por Sônia que é a paixão de Ródia, ou melhor, ele descobre que ela é a paixão dele a partir de sua verdadeira redenção e seu encontro com a bíblia.
· Casamento como instituição falida, contrato de interesses e convivências
Aqui podemos citar o casamento de Catarina com Mermaladov ou até mesmo o casamento não concretizado de Dúnia com Lujín
· Herói problemático, cheio de fraquezas, manias e incertezas
Um herói com mais fraquezas e com incertezas que Ródia não saberia dizer, não cheguei a ler tantos livros assim.
· Narrativa lenta, acompanhando o tempo psicológico
Os dias são poucos e a narrativa é longa, certas partes chega até ser exaustivo.
· Personagens trabalhadas psicologicamente
Não há hipótese ou circustância nenhuma de se dizer que há um personagem totalmente plano no livro, e talvez o que seja mais impressionante e impolgante para tantos admiradores do Dostoeviski, porque ao analisar os escritores que foram influenciados por ele: “Machado de Assis e Clarice Lispector” vemos que em suas obras os personagens também sofrem essa idéia de não serem linear e sim repletos de complexidade.
A obra desta forma se constitui em uma narrativa exuberante, e que com certeza é um dos livros que não se pode morrer sem ler.
Elisa Ventura